quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Você...

Em quantos sóis você já esteve?

Você está esquentando ainda.

Então, em quantos sóis você já esteve?

Eu me lembro do meu, era apenas um...


Talvez você tenha se transformado em uma enorme árvore velha,

Com sua casca dura, áspera e fria...

Só te sobrou cortiça, pequeno sol..


E eu poderia arrancar toda sua superfície morta se você permitisse,

Mas você não enxerga vida em nada, nem no seu interior...

E eu te vejo diminuir cada vez mais,

Será que você está se tornando uma estrela comum?


Nós só sabemos o que é um sol, até encontrar outro maior...


Bárbara G

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A última dose...

Tem vezes que a gente sonha tanto que nem sabe mais o que é realidade, abrimos os olhos e juramos que é mentira aquela verdade. Quando lhe disse que estava confusa, você sorriu e disse: “Por que não, baby?”. Puxou-me pela mão quando me viu cansada de subir aquela rocha cinzenta. É, é verdade que eu me lembro de cada detalhe… E você me entregou as chaves daquela prisão. Você me apertou contra seu peito, e pediu para que eu enxugasse as lágrimas que escorriam, porque seria pra sempre, e eu deitava a cabeça no travesseiro e imaginava nosso filme. Você me levou em seus braços até o pico mais alto daquela montanha, me dizendo que lá o pôr-do-sol era mais bonito. E quando lá chegamos, você me soltou e ficou olhando meu corpo sumindo aos poucos, com as mãos na cintura e os olhos mais vazios que alguém poderia ter visto. Você está sozinho na montanha esperando o sol nascer de novo para poder descer sem escuridão, mas o sol parece não querer nascer nunca mais, te impedindo de descer… Porque o sol não vai mais nascer.

Agora, mesmo eu aqui embaixo e você aí em cima, estamos na mesma escuridão, e não tem nenhum sorriso para iluminar essa noite, nem estrelas, nem lua… E você gritou: “Por favor, sorria, por favor”… Mas eu já não conseguia te ouvir.

Bárbara G

Chorume

Um monte de roupas no canto da calçada.
Um cachorro vigia ao lado,
O corpo descansa e a esperança continua acordada.

A claridade invade e mostra notícias
São muitas histórias contadas no mesmo jornal, nenhuma é a dele.
No entanto, é seu jornal quem vivencia cada vão momento, cada noite fria e sem vida...

Levanta! Busca o café!
Seu banquete ambulante está na próxima esquina
Engole sem medo, sem culpa e sem disciplina.
Acaricia o cachorro, carrega sua casa nas costas,
Pega tua maleta da angustia e leva...

Anda no sol!
Se refresca na chuva, derruba uma lágrima,
Encontra um amigo, solta um grunhido...

Entre estátuas e pombos ele caminha sem direção.
Com lembranças amargas guardadas por alguma razão
É um homem perdido, esperando pela vida,
Ele aguarda decepcionado, limpando a nova ferida.

Bárbara G

O invisível...

Enquanto passeamos pelas ruas avistamos vitrines de lojas, carros, caminhões, motos, semáforos, restaurantes, bares, botecos, padarias, farmácias e mendigos, com o passar do tempo pudemos perceber que os mendigos tornaram-se tão normais que são quase parte do cenário das grandes metrópoles.
São essas as pessoas que ficam deitadas em calçadas com jornais e cobertores, na chuva ou no sol, aqueles que sofrem preconceito, que são banidos de restaurantes ou simplesmente não comem, não essa noite... Aqueles que dividem a maçã que encontram no chão no final da feira ou o pão mofado achado no lixo. Engraçado perceber que os que têm menos são os que procuram ajudar mais, talvez por saberem o que é viver a falta de generosidade.
Não acredito que sejam todos sem oportunidade alguma de mudar a maneira que sobrevivem, alguns podem ter se acomodado ao incomodo, outros já estão cansados de verem as portas batendo, vivendo as sombras de precipícios luxuosos que nem imaginam como é dentro.
É inegável a solidão que esses seres humanos vivem, tem tanto a dizer, mas tão poucos para escutar-los, sentem-se excluídos por um universo capitalista e cheio de caprichos que nós criamos, nós somos os culpamos por boa parte do que fez esses mendigos tornarem-se desiludidos da vida, nós que tornamos o mundo limitado para essa parte da população.
É doloroso carregar nas costas o peso da culpa, por isso nos acostumamos com a tristeza, fome e angústia na rua, é tão normal, não é mesmo? Acabou que os papeis se reverteram, os mendigos somos nós, cheios de riquezas, mas pobres de coração...

Bárbara G