domingo, 23 de outubro de 2011

O sol maior...

Eu naveguei na imensidão de um lamaçal

E lá fiquei alguma vida,
Abraçada com a sombra do que queria partir


Uma luz amarela me atraiu para superficie da lagoa de lamúrias

E de lá eu vi uma pequena flor de lótus brotando

De toda minha sujeira nascia uma aprazível vida...

O brilho amarelo vinha dos olhos

Olhos de Citrino,
Que transformaram toda lama em terra fértil, pronta para receber mais vida.


Todas as noites que tento adormecer

Alguma coisa em mim reluta contra o sono

Pois meu sonho real é infinitamente mais doce do que qualquer experiência onírica...


Quando escutei os tambores surgindo do seu interior, Sol maior
Aquela sombra se foi,

E permaneceu comigo somente o brilho dos teus olhos de citrino.

O Citrino mais valioso que já senti...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Tegumento...

Depois de muito tempo procurando sementes,
Avistei nascer no meu vaso de terra seca uma frágil vida...
Não foi plantação minha, mas tornou-se.

Meu vaso passou a ser iluminado
Por uma luz que também não era minha
E tornou-se...

Você cresceu tanto...
Eu só te ofereço uma fonte quase escassa de água...
E você cresce,abre,nasce,renasce,vive...

Todo que você merece não cabe neste vasinho desgastado,
Que implora por uma plantação que de tão velha amarela é...
Eu queria ter dar uma vargem colossal, permanente em algum lugar escondido em mim.

Mas agora minha seiva é bruta, minha seiva é tão bruta...
E todos os jardins suplicariam pela harmonia de suas luzes.

Quando meu eu vaso ficar pequeno demais para você
Eu prometo te libertar sem perder nenhuma folha sua...
Porque você...

Umedeceu minha terra
Iluminou o meu jardim
E floresceu dentro de mim...

Todos os jardins suplicam pela harmonia de suas cores...


Bárbara G

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Macro automático...

Às vezes eu me pego vendo em macro,
Sabe?
Quando você foca em um ponto fixo e todo o resto fica embaçado?
E isso até um tempo me incomodava, tinha a sensação que perdia detalhes ensopados de carniça que eu simplesmente não queria ver.
Mas se eu não vejo, porque tudo isso ainda me angustia tanto?

Então eu descobri,
Todas as coisas do mundo se comunicam com a gente de diferentes formas,
Aquele menino sentado me contava sobre a vida com seu violão...
A menina tímida e sonhadora me dizia com os olhos...
O garoto confuso e perdido me falou com as mãos.

Eles me disseram que as pessoas olham, mas não enxergam.
E que a palavra é o instrumento mais longe do coração, porque antes de chegar à boca ela é filtrada pelo cérebro.

Por mais que elas não digam nada, todas as pessoas quando falam exteriorizam um pouco de si, um pouco da insegurança nos lábios trêmulos, um pouco do medo nos olhos piscantes, um pouco de tudo em todo sorriso.
Então por mais que os lábios mexam mudos, você vai escutar.

Bárbara Gimenez

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Forma de biscoitos...

Hoje eu vi um homem saindo da rodoviária, ele engolia um pedaço de pão de queijo e carregada a sua vida em uma mala de rodinhas... Aquela mesma cara de decidido me cansava um pouco, e quando eu estava quase certa de que não precisa ver mais nada, seu olho brilhou com água.
Naquela hora eu realmente quis saber sobre ele e tudo que o cercava, mas ele limpou a gota escondida com a mesma decisão do seu olhar e procurou dos lados por alguém que tivesse visto, como se fosse errado.
E ele se acha decidido demais para mudar, importante demais para errar, vivido demais para aprender e maduro demais para sentir...
E quanto mais tempo passa, menor fica sua bagagem e mais fácil fecha sua mala de rodinhas, porque crescem os anos e diminui a alma.
Quando o homem abre seu casulo de concreto, ele acredita cegamente que ninguém e nem nada é capaz de ensinar alguma coisa para ele, afinal, ele já sabe tudo, não é? Ora, ele ganha até dinheiro!
Pode ser que eu esteja exagerando, talvez seu erro fosse só um, ao invés de deixar o casulo nascer, ele construiu, como todas as coisas que passaram por ele, porque os homens vividos acreditam que as paixões o amor e os sonhos são coisas de jovens imaturos, então eles robotizam tudo... Quando na verdade imaturo é quem racionaliza tudo, porque só vive quem sente.


Bárbara G

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A ópera dos mudos

Não via meu rosto assim há tanto tempo, nem seus olhos castanhos...
O abraço guardado perdeu o tempero, mas o amor o manteve quente.
E em todos os quadros que até agora pintei coloquei seus velhos traços, espero que se contente em saber que já decorei cada ângulo.

Quantas vezes já me encontraram escondida com medo de encarar um estranho...
E quando eu decidi seguir em frente...
Eu vi...

O suor dos corpos virando um só...
Ali eu cometi meu maior erro,
Pois escutei a mais sublime música do teu coração...
E eu podia ter tapado os ouvidos, mas eu nunca falhei no meu exagero.


Já haviam me dito sobre seu olhar, e eu insisti..
Eu quis me aprofundar e me molhei e me afoguei e me encontrei dentro do seu...
Lago tão escuro, e pela primeira vez eu recusei uma salvação...
E dormi no sono mais puro...

Se te contar que o caminho é afável agora
Eu estarei só me enganando...
O preto e branco que invade esta paisagem lúgubre, é o mais nefando...

E no abismo de neblina que decidi pular
Eu vi voando seu esboço
E agora eu quero te pintar de novo, de novo e de novo...
Até a noite iluminar-se pelo seu sorriso brando...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Discurso Frívolo

Hoje concluo que este é o sentimento mais triste que já conheci, pois vejo nos olhos que eram doces, caminhos egoístas e pobres, o leve confundiu-se com vazio e o ladrão acabou por tornar-se a vítima.
De todas as estações do ano que já vivi, este é o outono mais frio e injusto, toda ventania que por ti passou levou um pedaço de gente que existiu no seu ser, agora nú você lamenta...Não existe alma que aqueça o corpo insistente enterrado no gelo.
E no meio do furacão de angustia eu seguro na única matéria imóvel e tento imaginar o que foi que aconteceu, a ordem cronológica de meus pensamentos deixa-me tão compungida, que vejo que do sorriso surge à lamúria e dela nasce repulsão, seguida de melancolia... A nostalgia faz-me pensar naquelas antigas mãos calmas e quentes que desapareceram... Por que viraste urso hibernando no inverno?Acabou por esquecer-se do riso do menino, da brancura do floco de neve e da leveza do dia após dia.
Meus olhos penosos te mostram o retrato da sua maior perda, você sempre tentou enganar-me com centenas de aparências harmoniosas, descobriu hoje minha cegueira, e os sentimentos que me cobrem esta noite são tantos que sonho em limitá-los.
Ah,seu urso maldito!Olha só a que sensações me reduziste?Meus olhos sorriem ao contrário, enquanto a futilidade reina dentro dos seus, por isso enrolo em vão este papel, e encerro menos infeliz que no início.
A parte mais dolorosa do tempo não é a morte, porque mesmo com ela a substância humana ainda permanece, a pior dor é ver viva uma pessoa que perdeu sua essência em qualquer garoa fina...

Bárbara G

quinta-feira, 3 de março de 2011

Mais um...

Se você olhar pela jenela que dá para rua e forçar um pouco os olhos, conseguirá ver milhões de ilhas, tão próximas uma das outras, mas ainda ilhas... Agora pode parar de forçar os olhos, você vê? As ilhas na verdade são seus amigos, seus familiares e você.
As ilhas choram o tempo todo por sentirem-se pequenas demais, mesmo assim não se unem, e eu penso todos os dias no quanto eu gostaria que as Antilhas se unissem.
Eu como pequena ilha triste, arrisco-me em dizer: A única solução para a solidão é o amor.
Eu ouço murmúrios de discórdia. As ilhas estão congeladas pela própria ignorância, mesmo insatisfeitas com o frio não se sentem motivadas para fazer nada. A própria insatisfação não é o suficiente? Vocês sabem que são as culpadas desta maldita praga! Desta sujeira que destrói cada coqueiro, cada pássaro e toda forma de vida que um dia viveu em você, cada indefesa planta que morre no teu corpo gelado é culpa da tua falta de cuidado, da tua falta de amor.
O que mais me causa tristeza não é ser outra ilha, mas é ser tão incapaz de mudar isto... E mesmo eu os odiando tanto por este mal, todo o meu amor puro é enviado para minhas ilhas, não com esperança de mudança, mas só pelo meu simples prazer de amar inconscientemente cada parte frágil destas ilhas, no fundo o meu maior medo é me tornar um pedaço de terra tão vazio quanto vocês...
Bárbara G

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Você...

Em quantos sóis você já esteve?

Você está esquentando ainda.

Então, em quantos sóis você já esteve?

Eu me lembro do meu, era apenas um...


Talvez você tenha se transformado em uma enorme árvore velha,

Com sua casca dura, áspera e fria...

Só te sobrou cortiça, pequeno sol..


E eu poderia arrancar toda sua superfície morta se você permitisse,

Mas você não enxerga vida em nada, nem no seu interior...

E eu te vejo diminuir cada vez mais,

Será que você está se tornando uma estrela comum?


Nós só sabemos o que é um sol, até encontrar outro maior...


Bárbara G

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A última dose...

Tem vezes que a gente sonha tanto que nem sabe mais o que é realidade, abrimos os olhos e juramos que é mentira aquela verdade. Quando lhe disse que estava confusa, você sorriu e disse: “Por que não, baby?”. Puxou-me pela mão quando me viu cansada de subir aquela rocha cinzenta. É, é verdade que eu me lembro de cada detalhe… E você me entregou as chaves daquela prisão. Você me apertou contra seu peito, e pediu para que eu enxugasse as lágrimas que escorriam, porque seria pra sempre, e eu deitava a cabeça no travesseiro e imaginava nosso filme. Você me levou em seus braços até o pico mais alto daquela montanha, me dizendo que lá o pôr-do-sol era mais bonito. E quando lá chegamos, você me soltou e ficou olhando meu corpo sumindo aos poucos, com as mãos na cintura e os olhos mais vazios que alguém poderia ter visto. Você está sozinho na montanha esperando o sol nascer de novo para poder descer sem escuridão, mas o sol parece não querer nascer nunca mais, te impedindo de descer… Porque o sol não vai mais nascer.

Agora, mesmo eu aqui embaixo e você aí em cima, estamos na mesma escuridão, e não tem nenhum sorriso para iluminar essa noite, nem estrelas, nem lua… E você gritou: “Por favor, sorria, por favor”… Mas eu já não conseguia te ouvir.

Bárbara G

Chorume

Um monte de roupas no canto da calçada.
Um cachorro vigia ao lado,
O corpo descansa e a esperança continua acordada.

A claridade invade e mostra notícias
São muitas histórias contadas no mesmo jornal, nenhuma é a dele.
No entanto, é seu jornal quem vivencia cada vão momento, cada noite fria e sem vida...

Levanta! Busca o café!
Seu banquete ambulante está na próxima esquina
Engole sem medo, sem culpa e sem disciplina.
Acaricia o cachorro, carrega sua casa nas costas,
Pega tua maleta da angustia e leva...

Anda no sol!
Se refresca na chuva, derruba uma lágrima,
Encontra um amigo, solta um grunhido...

Entre estátuas e pombos ele caminha sem direção.
Com lembranças amargas guardadas por alguma razão
É um homem perdido, esperando pela vida,
Ele aguarda decepcionado, limpando a nova ferida.

Bárbara G

O invisível...

Enquanto passeamos pelas ruas avistamos vitrines de lojas, carros, caminhões, motos, semáforos, restaurantes, bares, botecos, padarias, farmácias e mendigos, com o passar do tempo pudemos perceber que os mendigos tornaram-se tão normais que são quase parte do cenário das grandes metrópoles.
São essas as pessoas que ficam deitadas em calçadas com jornais e cobertores, na chuva ou no sol, aqueles que sofrem preconceito, que são banidos de restaurantes ou simplesmente não comem, não essa noite... Aqueles que dividem a maçã que encontram no chão no final da feira ou o pão mofado achado no lixo. Engraçado perceber que os que têm menos são os que procuram ajudar mais, talvez por saberem o que é viver a falta de generosidade.
Não acredito que sejam todos sem oportunidade alguma de mudar a maneira que sobrevivem, alguns podem ter se acomodado ao incomodo, outros já estão cansados de verem as portas batendo, vivendo as sombras de precipícios luxuosos que nem imaginam como é dentro.
É inegável a solidão que esses seres humanos vivem, tem tanto a dizer, mas tão poucos para escutar-los, sentem-se excluídos por um universo capitalista e cheio de caprichos que nós criamos, nós somos os culpamos por boa parte do que fez esses mendigos tornarem-se desiludidos da vida, nós que tornamos o mundo limitado para essa parte da população.
É doloroso carregar nas costas o peso da culpa, por isso nos acostumamos com a tristeza, fome e angústia na rua, é tão normal, não é mesmo? Acabou que os papeis se reverteram, os mendigos somos nós, cheios de riquezas, mas pobres de coração...

Bárbara G